15/08/2026
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MP notifica Suzano e Eldorado sobre impacto de eucaliptais

MP notifica Suzano e Eldorado sobre impacto de eucaliptais

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul notificou as empresas Suzano e Eldorado Brasil para que apresentem, em até 15 dias, esclarecimentos sobre possíveis danos ambientais causados pela expansão dos eucaliptais no leste do estado. O promotor Antônio Carlos Garcia de Oliveira, de Três Lagoas, enviou o ofício no último dia 10 para as sedes das empresas, em São Paulo.

Outras duas empresas do setor, a Arauco e a Bracell, podem ser chamadas a se manifestar durante o andamento do inquérito civil. A ação representa uma mudança na relação entre o poder público e o setor de celulose, que desde o início dos anos 2000 foi tratado como prioridade para o desenvolvimento econômico de Mato Grosso do Sul.

O inquérito teve origem em um pedido do ex-governador Zeca do PT, baseado em um laudo do gestor ambiental Valticinez Santiago, secretário de Meio Ambiente de Selvíria. Santiago citou cerca de 400 nascentes que teriam secado por causa dos eucaliptais. O MP, no entanto, fez uma investigação prévia e concluiu que são necessários mais dados científicos para ligar os danos à expansão da silvicultura ou a áreas já degradadas pela pecuária.

Em nota, a Suzano informou que não recebeu a notificação. A empresa afirmou que mantém compromisso com a conservação ambiental, que planta apenas em áreas antes usadas para agropecuária e que possui política de desmatamento zero, certificações internacionais e 327 mil hectares de conservação em Mato Grosso do Sul. A Eldorado não comentou a investigação, mas disse que atua conforme a legislação brasileira e com padrões de governança e transparência.

Pesquisas apontam impactos

A investigação do MP se baseia em levantamentos próprios e em estudos técnicos. Um deles é feito desde 2019 pela geógrafa francesa Marine Dubos-Raoul, professora convidada da UFMS. Parte do trabalho foi publicada em 2022 e documenta as transformações em comunidades rurais de Três Lagoas.

A pesquisa combina imagens de satélite do MapBiomas desde 1985, análise de microbacias, dados de chuva e entrevistas com moradores. O cruzamento das informações aponta para um processo de degradação ambiental acelerado nos últimos 15 anos pela expansão do monocultivo de eucalipto em áreas já alteradas pela pecuária.

Em quatro décadas, a área plantada com eucalipto no estado passou de 35.358 hectares em 1985 para 189.749 hectares em 2007, chegando a 893.320 hectares em 2024. Um levantamento atualizado em 2025 estima que o estado já tenha 1.729.763 hectares de florestas plantadas. A vegetação nativa caiu de 4.107.983 hectares para 1.562.499 hectares no mesmo período, uma perda de mais de 2,5 milhões de hectares.

Entre 2007 e 2025, a área de eucalipto cresceu mais de 810%. As pastagens, que ocupavam 6.903.885 hectares em 2007, recuaram para 4.961.905 hectares em 2024, cedendo espaço para os eucaliptais.

Escassez de água

A pesquisa de Marine Dubos-Raoul mostra que a combinação da eliminação do Cerrado, do clima mais seco e do cultivo de eucalipto em grande escala tem levado à escassez hídrica. A geógrafa evita afirmar que o eucalipto seca as nascentes, mas diz que a ocupação do solo contribui para a redução da água.

A série histórica de chuvas analisada indica que o volume anual de precipitação se manteve estável nas últimas décadas. Isso não explica sozinho a redução da vazão em córregos, açudes e nascentes. “É difícil afirmar que o eucalipto seca as nascentes. O que consigo afirmar é que essa ocupação do solo vem contribuindo para a escassez hídrica”, afirmou a pesquisadora.

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Sobre o autor: Sofia Almeioda

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