Um trecho de cerca de 100 metros da Rua Allan Kardec, no Bairro Amambaí, em Campo Grande, terá o nome alterado. A via, que há mais de 50 anos homenageia o pai do espiritismo, passará a se chamar Alameda Eliseu Feitosa de Alencar, fundador da IEADMS (Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Mato Grosso do Sul). A mudança foi aprovada pela Câmara Municipal na última quinta-feira (9).
A alteração foi solicitada pelos pastores Eliel Araújo de Alencar, filho do homenageado, e Felipe Augusto Neto, neto do fundador da igreja. Ela abrange apenas a quadra entre a Rua Barão do Rio Branco e a Avenida Doutor João Rosa Pires, onde está localizado o templo matriz da igreja. O projeto recebeu parecer contrário da Semades (Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável), que apontou possíveis impactos administrativos relacionados à numeração dos imóveis, mas acabou aprovado pelos vereadores Herculano Borges (Republicanos) e Clodoilson Pires (Podemos).
Na manhã desta terça-feira (14), a reportagem esteve no local e encontrou a placa ainda com o antigo nome da rua. Parte dos moradores afirmou que só soube da alteração após ser procurada pelo Campo Grande News. Moradora da Rua Alan Kardec há seis anos, a aposentada Ulda Fernandes dos Santos, de 64 anos, diz que não foi informada sobre a alteração. “Em casa ninguém está sabendo disso. Acho que, por ser uma coisa pública, deveria ser comunicado aos moradores para saber se concordam ou não. Ninguém falou nada com a gente”, afirmou.
Ela não reside na quadra diretamente afetada, mas considera que uma consulta à vizinhança seria importante. “Se me perguntassem, primeiro gostaria de entender qual é a finalidade da homenagem e por que essa pessoa seria homenageada. Para quem mora aqui, não é um nome conhecido”, contou. O psicólogo Mateus Vilalba Defende Petuco, morador da Rua Allan Kardec há 22 anos, tem a mesma percepção. Ele também desconhecia a mudança. “Não muda a nossa vida, mas acho importante que os moradores sejam consultados sobre decisões que envolvem a comunidade”, disse.
Mateus afirma ainda que, em sua avaliação, o Estado deveria preservar maior separação entre religião e poder público. “Não sou uma pessoa muito ligada à religião, mas acredito que deveria haver uma divisão maior entre Estado e religião. Mesmo sendo um Estado laico, sabemos que as instituições religiosas ainda exercem bastante influência na sociedade.” Na igreja, a homenagem é tratada como um reconhecimento ao fundador da denominação. Um dos pastores da IEADMS, Jorcelino Pereira Nantes, afirma que a proposta não tem relação com o fato de a via homenagear Alan Kardec.
“Não tem nada a ver. Nós não temos nada contra. Cada um cuida da sua parte e respeitamos todas as pessoas. Surgiu apenas a necessidade de homenagear o nosso presidente fundador”, disse. Segundo ele, a igreja está instalada no endereço há cerca de cinco décadas. “Na frente e na lateral praticamente todos os imóveis pertencem à igreja. Os poucos vizinhos que não fazem parte da congregação concordaram com a homenagem”, disse. Conforme o pastor, a substituição da placa de identificação da via ainda depende de autorização da Prefeitura.
Autor do projeto, ao lado do vereador Clodoilson Pires (Podemos), o vereador Herculano Borges (Republicanos) afirmou que a proposta surgiu após receber um abaixo-assinado apresentado por integrantes da igreja. “Na verdade, não estamos mudando o nome da rua. Estamos criando uma alameda naquele trecho específico. O restante continua sendo Rua Alan Kardec.” O parlamentar disse que considerou justa a homenagem por entender que Eliseu Feitosa teve papel importante na história da igreja e da região.
“Foi uma forma de valorizar uma pessoa que fez história na cidade. Tenho respeito por Allan Kardec e por todas as religiões. Isso não é uma afronta a ninguém.” Questionado se a mudança poderia gerar desconforto entre espíritas, Herculano afirmou que acredita não haver motivo para conflito. “Vários vereadores espíritas votaram favoravelmente ao projeto depois que expliquei a proposta. Eu tenho familiares espíritas e respeito todas as crenças. É apenas uma homenagem local.” Ao comentar o parecer da Semades, o vereador disse que esse tipo de manifestação é comum em projetos semelhantes.
